Uma série da autoria do Prof. Giovanni Fighera

Este artigo foi originalmente publicado em simultâneo no quotidiano on-line La Nuova bussola quotidiana (https://lanuovabq.it/it/apprendiamo-la-retorica-la-madre-di-tutte-le-discipline) e no blog do autor La ragione del cuore (https://www.giovannifighera.it/il-latino-serve-a-tutto-3-apprendiamo-la-retorica-la-madre-di-tutte-le-discipline/), no dia 15 de abril de 2018. A tradução portuguesa é aqui publicada com a autorização das partes interessadas, a quem agradecemos a generosidade.

Este terceiro artigo da série reveste-se de uma particular importância nos nossos dias, em que o bom uso da palavra se torna cada vez mais decisivo para o sucesso profissional. Quantas entrevistas de emprego teriam dado certo, se o candidato dispusesse de boas bases de retórica? E, mesmo no meio académico, quanto melhoraria a expressão oral e escrita dos alunos, se déssemos mais atenção às fases da retórica (inventio, dispositio, elocutio, memoria e actio) e às partes do discurso (exordium, narratio, partitio, confirmatio, refutatio e peroratio)? Não será que os alunos, na posse destes conhecimentos, escreveriam textos argumentativos mais sólidos e convincentes, e teriam apresentações orais mais seguras e carismáticas?

Aprendamos retórica, a mãe de todas as disciplinas

Se até ao século XVII se assistia ao domínio incontestado da retórica, propedêutica para todos os saberes, hoje, pelo contrário, assiste-se à transformação em ciência de todas as disciplinas. Prova disso são as expressões «ciências humanas», «ciências religiosas», «ciências literárias», «ciências filosóficas», «ciências da comunicação»…

Remonta a Catão-o-Censor a expressão «rem tene, verba sequentur», ou seja, «possui argumentos, as palavras segui-los-ão». Se hoje muitos alunos não sabem falar, as causas devem procurar-se também no facto de que não dominam bem os seus argumentos. Façam-nos falar de temas que os apaixonam: verão como mudam a segurança da sua exposição, o tom do discurso e a escolha lexical. Um dos primeiros conselhos que se dão aos neófitos nos cursos de escrita é o de escolher assuntos e argumentos bem conhecidos para os próprios romances e contos. Este preceito não faz mais do que repetir o que defendiam os retores antigos.

Hoje pululam os cursos de comunicação e de escrita, sintoma da exigência comummente sentida de adquirir maiores competências no discurso escrito e oral, na arte da persuasão e na clareza expositiva. Muitos estão convencidos de que lhes são dadas novas capacidades, desconhecidas noutras épocas. Na realidade, não há nada de novo debaixo do sol, nada que não seja uma simplificação ou uma pálida cópia da majestosa mãe de todas as disciplinas, a saber: a retórica.

Esta disciplina nasceu na polis [cidade] grega em vista das disputas políticas. Foi introduzida na cultura romana para formar o advogado ou quem quisesse empreender o cursus honorum [carreira política]. Na Idade Média, era uma das disciplinas cardeais do trivium (juntamente com a gramática e a dialética). No início do século XV, estava na base da política: o chanceler de Florença Coluccio Salutati, por exemplo, tinha uma rica formação retórica.

Até aos séculos XVI e XVII, a retórica estava na base da formação cultural de um político como Maquiavel (1469-1527) ou de um cientista como Galileu (1564-1642). A aprendizagem teórica e prática da retórica na Antiguidade e na Idade Média decorria durante muitos anos, fornecendo uma preparação fundamental para o exercício da atividade política, judiciária, literária. Dela se valiam todos os estudiosos, não só os poetas e os literatos, mas também os historiadores e os cientistas. Só assim se pode compreender como uma obra política como O príncipe de Maquiavel (1513) ou tratados científicos como O ensaiador (1623) ou O diálogo sobre os dois principais sistemas (1632) de Galileu Galilei se tenham, merecidamente, tornado dois clássicos da literatura italiana.

Só nos séculos seguintes as disciplinas começaram a libertar-se da grande mãe retórica. Hoje em dia um ensaio científico não é também um texto literário, porque não é elaborado segundo as normas dos géneros literários e da classificação dos estilos. Seguirá evidentemente as normas da correção linguística e da precisão e cientificidade do léxico, mas em nenhuma antologia literária aparecerão, contudo, livros contemporâneos de história ou ciência.

Se até ao século XVII se assistia ao domínio incontestado da retórica, propedêutica para todos os saberes, hoje, pelo contrário, assiste-se à transformação em ciência de todas as disciplinas. Prova disso são as expressões «ciências humanas», «ciências religiosas», «ciências literárias», «ciências filosóficas», «ciências da comunicação». Não é, portanto, de surpreender nem a exigência de que cada disciplina tenha um estatuto ontológico próprio e uma seriedade de estudo própria, nem a presunção de que as disciplinas que sempre estiveram separadas da ciência, porque têm um método diferente, devam hoje adquirir os mesmos procedimentos de análise típicos do âmbito científico. O triunfo do Iluminismo que estendeu as suas ramificações até ao Positivismo do século XIX e ao Neopositivismo do século passado reduziu a complexidade do homem e da realidade, subvalorizando ou até rejeitando todas as outras numerosas faculdades humanas que não estão contempladas debaixo da etiqueta «científico».

Outrora, as artes liberais, isto é, as disciplinas dignas de um homem livre, contrapostas às artes mecânicas, compunham-se do trivium e do quadrivium. O trivium, dedicado às disciplinas humanísticas, era constituído pela gramática (isto é, o Latim), retórica e dialética.

Na escola de outrora aprenderam-se, durante anos, as cinco fases da retórica, a inventio, a dispositio, a elocutio, a memoria e a actio, fases que ainda hoje nós podemos aprender através da leitura do De oratore de Cícero e da Institutio oratoria de Quintiliano ou do mais recente Manual de retórica de Bice Mortara Garavelli.

Mas no atual sistema de estudos, obrigatório até aos dezoito anos (doze anos para quem acaba o secundário), quem estudou retórica? Muitos rapazes não terão sequer ouvido nomear o nome das suas fases. E agora, perguntamos: quem é que estuda retórica na universidade, mesmo nos cursos de licenciatura em Letras?

A retórica é a arte do bem falar, do bem escrever, do persuadir. Compõe-se de cinco fases.

A inventio ensina a recuperar os exemplos, as imagens, as histórias, as provas mais convincentes para defender uma determinada tese ou para argumentar uma questão colocada.

Na dispositio aprende-se a estruturar o discurso de modo a que seja persuasivo. Assim, o discurso deverá ser composto por um exórdio, por uma narração, por uma argumentação da própria tese e pela refutação da do opositor, por fim, pela peroração na qual o retor deverá garantir que goza da benevolência e do apoio do público.

Só depois destas duas primeiras fases preliminares é que o retor se dedica a escrever, fazendo uso das virtudes da expressão: da correção (puritas), passando pela clareza da exposição (perspicuitas), até à beleza do detalhe (ornatus) através do uso das figuras retóricas, da elegância lexical (elegantia), do ritmo e fluidez adequados ao discurso (cursus). Esta terceira parte da retórica que ensina a escrever é chamada elocutio.

Qualquer pessoa que ensine ou desenvolva uma atividade em que é fulcral a relação com um auditório sabe bem como é eficaz uma exposição dos argumentos sem consultar notas ou livros. Quem fala deve possuir uma memoria que lhe permita expor sem precisar de consultar o texto escrito ou cábulas. Nesta parte chamada memoria, o retor aprende as técnicas de mnemónica para que possa argumentar com segurança e durante muito tempo a sua tese.

A fase conclusiva do estudo retórico consiste na actio, em que se aprende a mímica facial, o tom de voz, o domínio dos gestos, a postura correta para se apresentar em palco diante do auditório.

Mas o que é que ficou do estudo da retórica na escola? Veremos no próximo artigo.

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